Propedêutica, Anamnese, Repertorização e Tratamento em Homeopatia Veterinária para Animais de Companhia

Todos os passos na consulta homeopática em animais devem ser feitos com paciência, em estado de alerta, receptividade total a qualquer que seja a história relatada e tentando alcançar o máximo de empatia com o nosso paciente, uma vez que sua sensibilidade instintiva já é aguçada, e se tornará ainda mais durante o exame.

Nos mamíferos, de grande, médio ou pequeno porte, as alterações clínicas são muito variadas, mas praticamente todas correlatas às humanas. Curiosamente, nos animais de estimação tem ocorrido paulatinamente um aumento das enfermidades, que também tem aumentado nos seres humanos.

Não há uma explicação exata, mas por quê tantas enfermidades têm surgido nos animais de estimação? Será efeito da endogamia, com aumento da herança de defeitos genéticos? Ou da poluição ambiental crescente, com água e alimentos contaminados com diversos tipos de metais pesados, resquícios de medicamentos e pesticidas, que triplicam a produção de radicais livres intra-celulares, afetando o Sistema Imune?

Ou a convivência mais estreita com seus responsáveis, a criação não mais em casas com grandes quintais, mas dentro de limitados apartamentos, tornando-se mais um membro da família humana? Esta interação constante estaria estimulando o entendimento, com a evolução supra-física ou espriritual? E atrelado a este entendimento dilatado, a vontade estaria despertando, às vezes inadequadamente, gerando conflitos e desequilíbrio?

Não tendo o entendimento e a vontade domicílio físico conhecido, e ao verificarmos nos animais domésticos sintomas patogenéticos derivados de seu desvio, ficamos refletindo se todo processo evolutivo é doloroso, como acontece quase sempre no Ser Humano. De outra forma, como explicar as enfermidades que acometem nossos animaizinhos de estimação, que muitas vezes os fazem sofrer tanto?

Aí nos deparamos com um possível fato. O ser humano tem na sua evolução dois caminhos: um abrangendo a compreensão pacífica frente a infinitude do Universo, da Lei Perfeita e imutável da Ação e Reação e da outra Lei Perfeita do Progresso inexorável. O segundo caminho, o da Dor, para aqueles que se revoltam e teimam em modificar o que já é. Ela, a Dor, é excelente Mestra. Ocorre que com os animais, lhes é limitado o que tantas vezes utilizamos equivocadamente: o Livre Arbítrio.

Os animais de estimação de hoje, hipertrofiam sua Vontade, enchem-se de desejos (pois lhes oferecemos muitas guloseimas, carinho em excesso, diferentes tipos de comida, roupinhas, passeios, e outros mimos, nocivos se excessivos) e aí, observamos que uns poucos se mantém estáveis, sólidos, estóicos na enfermidade e por isso mesmo superando melhor e mais rápido.  E outros, que deixam proliferar a hidra de mil cabeças, saindo de uma entidade clínica para outra, quando não têm suas faculdades psíquicas afetadas. São submetidos às lições da Mestra Dor, mas como despertar seu Entendimento, a compreensão de que a atitude equivocada tem de mudar antes da regeneração tecidual e cessação do desconforto?

Aqui pode entrar em cena o Clínico Veterinário Homeopata, que além de buscar um medicamento que alivie, tenta orientar o responsável para modificar o manejo e hábitos equivocados. Deve buscar ainda entender no animal de estimação o caráter (que muito se deve ao modo como foi criado da infância à fase adulta), o temperamento (que sofre influências genéticas) e, além disso, estar a par das necessidades nutritivas  de cada espécie, gênero e raça.

Para comentar alguns tópicos, podemos iniciar com o aspecto nutricional: atualmente há muitas doenças que ocorrem tanto pela carência, quanto pelo excesso de vitaminas, proteínas, carboidratos e sais minerais. Cabe ao ser humano também administrar esta parte e fornecer uma dieta regular e equilibrada.

O cão adulto possui um metabolismo gerando energia a partir dos carboidratos, como nós. Necessita de duas refeições completas por dia. Mas ele é um glutão por natureza, pedirá ininterruptamente o que gosta, e se o responsável “cair nessa”, estará provocando desequilíbrios por super-alimentação.

Já o gato, carnívoro obrigatório, com seu metabolismo todo baseado no consumo de proteínas e não carboidratos, necessita de acesso contínuo ao alimento, pois ele come aos poucos, à medida que consome energia. Se for submetido a um jejum forçado, poderá desenvolver uma grave lipidose hepática, e aí não teremos um sintoma por predisposição individual, trata-se de uma tendência de todo o gênero Felix catus domesticus.

            Outro ponto vital: reconhecer o sintoma. Como nossos amiguinhos não falam explicitamente, temos que aumentar a atenção e contar com o esclarecimento do proprietário, que nem sempre é claro. Temos por exemplo, a queixa de vermelhidão da esclerótida e lacrimejamento ocular bilateral e pode estar acompanhada de midríase. Pensaremos logo em Belladona, Atropina, Hyosciamus? Mas este sintoma pode também estar ligado a um distúrbio metabólico ou vascular, ou por luxação do cristalino, refletindo-se em glaucoma agudo, que nos cães é urgência cirúrgica!

Vamos pensar em outro cão, apresentando a mesma queixa de vermelhidão da esclerótida e lacrimejamento ocular, mas verificamos que há miose bilateral. Poderá ser uma uveíte, sintoma perfeitamente repertorizável; mas, e se a miose for manifestação de envenenamento por organofosforado, que necessita ser antidotado em curto prazo?

Um pobre animal entra com claudicação nos membros posteriores. O responsável relata “dores reumáticas” e “já teve várias destas crises”. Você mentalmente já começa a enumerar os possíveis medicamentos: Rhus tox, Guaiacum, Rhamnus californica… Só que neste meio tempo, ao examinar o animal através de palpação, notará dor que não suporta o toque a cada lado da região toraco-lombar. Após coleta de uma amostra de urina através de sonda uretral, a mesma estará muito escura e turva.  É hora então de rever a localização do sintoma e o grau lesional do paciente, prever seu prognóstico, esperar possível agravação, e ter muita atenção na direção que os sintomas vão tomar a partir da medicação. Enfim, qual é o caminho da cura, e qual o do aprofundamento da enfermidade?

Voltemos ao relato do responsável. Após escutar o mesmo, direcionar as perguntas para agravações, melhorias e horários, evitando perguntas óbvias. Tentar buscar as Modalidades, de acordo com o Dr. Boenninghause em seu “Boenninghausen`s Therapeutic Book”:

×  Como é seu comportamento ao passear na rua? Gosta de andar rápido, andar devagar, não gosta de sair? ( agg.walking open air).

×  Quando e como acorda? Pela madrugada, tarde, com irritação, vômitos após acordar, preguiçoso…

×  Na consulta, suspira, boceja, rosna, caminha sem cessar, ofega, respira profundamente? Seu olhar é amistoso, tímido, ameaçador, desconfiado?

×  Gosta de ser tocado? Não gosta de ser tocado levemente, só de forma mais bruta? (Há proprietários que avisam: “Segure e examine para valer, ele não gosta de mão leve”…)

×  Ou ainda, agrava ou melhora de dia, à noite, com tempo quente ou frio, em determinados horários. Estes dados devem ser solicitados a cada consulta. Há casos em que cada vez que perguntamos a resposta é diversa, e assim não temos como assegurar se o sintoma é característico, até investigá-lo completamente.

×  Em relação à sociabilidade: procurar saber como se comporta em casa, se gosta de estar sempre junto, ou se busca privacidade. Como é sua atitude com estranhos, quando em casa e na rua. Pode ocorrer relato que alguns só latem para alguns cães ou algumas pessoas (aversão a certas pessoas).

×  Quanto aos banhos, pode melhorar ou agravar. Há alguns animais com problemas crônicos de pele que curiosamente melhoram justamente quando há espaçamento entre os banhos, até de 20 em 20 dias, por exemplo, e só assim diminui o mau cheiro da pele e o prurido!

×  Algumas vezes o responsável relata coceira constante nos ouvidos. Ao serem examinados, estão completamente limpos. Parece tratar-se mais de um hábito, como a criança coçando a cabeça ou chupando o dedo. Chegam a coçar em “câmara lenta” por longos minutos. Podemos pensar em um sintoma do Boericke, “Am. Boring into, nose, ear” (Modalities, p976). Ou pode ser comichão súbito, prurido, formigamento. O que será?

×  Observamos os desejos alimentares parcialmente, uma vez que a maioria come estritamente ração. Mas observamos a vontade incontrolável quando eles roubam determinados alimentos, frios, ou quentes, salgados ou doces.

×  Vimos uma característica dos bichanos, ou cãezinhos, ao relaxarem durante a consulta, adotarem uma posição de patinhas anteriores cruzadas, e o dono confirma o hábito – Boericke – crossing limbs am (abrot, ant-t, lit-t, murx, rhod, Sep, thuj).

×  Outras particularidades que podemos notar: dorme com a cabeça apoiada no alto, sobre um lado, sobre o lado doloroso, gosta de ser magnetizado, movimenta a parte afetada. Nem sempre o responsável está pronto para perceber, e devemos impedir que ele afirme sem certeza. Em caso de dúvida, pedimos para observar e relatar posteriormente.

×  Há alguns bichinhos cujos donos relatam: “Após evacuar ele fica felicíssimo, sai correndo pela casa saltitando”. Talvez possamos considerar “defecar_após_melhora” (Repertorio Essencial – Dr. Aldo). Também temos “defeca involuntariamente por susto” (acon, ant.c, arg, coff, gels, med, op, Phos, Verat). Houve uma fêmea canina, da raça Schnauzer, que já há algum tempo apresentava problemas com seu ciclo estral, apresentando uma endometrite sub-clínica e alterações no pós-cio. Certa vez, a sua dona disse que ela havia evacuado fezes amolecidas após tosar, e só aí relatou que ela sempre teve muito medo nos dias de tosa. Com algumas doses de Gelsemium  sua evacuação normalizou e desde então nunca mais teve nenhum  problema uterino ou de cio.

×  Quando perguntamos como se comporta com barulho, podemos ouvir muitas respostas interessantes. Incomoda o barulho alto, música, vozes, vozes alteradas, brigas entre familiares, barulho próximo, barulho longe. Sim, agrava com o barulho, mas vamos tentar buscar mais sobre isto.

×  Nas descolorações da pele, ao captarmos os sintomas, não nos desconectemos do significado clínico, como calcificações (hiperadreno?), manchas cor de ferrugem (hipotiroidismo?, senilidade?), manchas escuras (cicatrizes, depósitos melanogenicos pré-cancerígenos, falta de nicotidamida ou ácido Pantotênico). O objetivo de não ficar somente na busca do sintoma repertorial do capítulo Pele, é que a consciência do problema clínico pode antever o aparecimento de novos sintomas com o aprofundamento da enfermidade. Para uma tireóide completamente afuncional ou um adenoma hipofisário serão necessárias medidas adicionais, junto a um acompanhamento laboratorial cuidadoso. O responsável tem de estar a par do quadro clínico todo o tempo, ciente que está fazendo uma opção terapêutica, com um caráter totalmente oposto ao esquema terapêutico tradicional. Nós temos que estar conscientes que quando se trata de sintoma em Pele, na quase totalidade dos casos estamos lidando com a superficialização de uma enfermidade crônica, com raízes mais profundas que a epiderme, e devemos observar seu caminho e corrigir sua rota até a harmonização da Psora primária.

×  É habitual o responsável chegar com seu animalzinho apresentando otites em variados graus de dor e descamação. Sempre há queixas contra o tosador ou banhista, mas sabemos que se muito, apenas 10% destas otites são realmente motivadas porque caiu água no ouvido durante o banho. Tem de se buscar alergias alimentares, distúrbios hormonais (otites são comuns em cadelas antes do cio, ou que tenham problemas ovarianos), parasitoses. Enfim, a otite sinaliza que o organismo está desequilibrando, naquele indivíduo.  Este desequilíbrio em outro animal poderá ser expresso por dermatite, distúrbio gastrointestinal, urinário, etc. Tudo depende da susceptibilidade + predisposição.

×  Na área reprodutiva temos muitos quadros interessantes. Nos machos, pode ocorrer libido aumentada e agressividade exacerbada. O motivo pode ser defeitos hereditários, criptorquidias (resultado do inbreeding = consangüinidade). Nas fêmeas ocorre com freqüência a pseudociese, sempre cerca de dois meses após o cio, mas manifestando-se de acordo com o indivíduo. Haverá alterações de comportamento, entre aumento da agressividade a crises de pânico. Em algumas, ocorrerá lactação persistente, noutras, apenas hipertrofia e hiperplasia mamária, sem leite, mas acompanhada de sérios desníveis comportamentais. É fato que ocorre um distúrbio da prolactina e dos neurotransmissores hipotalâmicos, mas é lenda achar que todos os quadros de pseudociese sairão bem com Lac caninum.

 

Leonora Mello

2 thoughts on “Propedêutica, Anamnese, Repertorização e Tratamento em Homeopatia Veterinária para Animais de Companhia

  1. Bom dia!
    mimha cachorrinha de 4 meses esta com cinomose e erliquiose, além da alopatia gostaria de começar um tratamento homeopatico para ela.
    é possivel uma consula atraves de skype, whatzap ou email? moro em montes claros mg
    obrigado

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